Aave, Compound e Morpho são os três maiores mercados monetários on-chain, e precificam o risco de formas muito diferentes. A Aave e a Compound utilizam liquidez agrupada com curvas de utilização, enquanto a Morpho Blue faz o emparelhamento entre credores e mutuários ponto a ponto e encaminha o excedente para um pool de base. A melhor escolha depende do ativo que detenhas, da cadeia que utilizas e de estares disposto a aceitar o risco de um otimizador e de governança em troca de um rendimento mais elevado.
Pontos-chave
- A Aave e a Compound agrupam os fundos dos depositantes e definem as taxas a partir de uma curva de utilização, enquanto a Morpho Blue faz o emparelhamento direto entre pares e só encaminha o excedente para um pool de recurso.
- Os três são sobrecolateralizados, o que significa que um oráculo de preços e um motor de liquidação decidem se a tua garantia é vendida, e é nesse processo que surgem, na verdade, a maioria das perdas dos utilizadores.
- As vaults MetaMorpho da Morpho acrescentam uma camada extra de curador e de taxas sobre a Morpho Blue, o que aumenta o rendimento em mercados calmos e concentra o risco de contrato inteligente e de governança.
- Os incidentes reais importam: a Aave V2 congelou mercados selecionados após o exploit da Mango em 2022, e a Compound teve dois bugs na distribuição de COMP que cunharam tokens para endereços errados.
O que são, na verdade, a Aave, a Compound e a Morpho
Se alguma vez depositaste uma stablecoin numa aplicação de cripto e viste um número de rendimento a subir, provavelmente já usaste, ou pelo menos olhaste para, um protocolo de empréstimo descentralizado. Aave, Compound e Morpho são os três maiores mercados monetários on-chain em termos de depósitos totais e, no conjunto, detêm uma parte significativa de todo o valor que está em finanças descentralizadas, frequentemente abreviadas como DeFi.
Tirando a camada de marketing, cada protocolo está a fazer o mesmo trabalho. Os credores depositam um ativo, os mutuários entregam uma garantia e obtêm um empréstimo, e o protocolo mantém os dois lados ligados. A taxa de juro que o mutuário paga é o rendimento que o credor recebe, depois de descontadas eventuais taxas do protocolo ou do curador. Esse ciclo simples é, na essência, todo o modelo de negócio.
As diferenças estão na механизa interna. A Aave e a Compound operam mercados agrupados, em que cada depositante de USDC partilha um grande balde de liquidez. A Morpho Blue é uma camada de emparelhamento ponto a ponto que assenta sobre um pool de base, e só encaminha para esse pool a parte que não encontrou contraparte. A escolha entre eles não é sobre qual é melhor num sentido abstrato, mas sobre qual modelo se adequa ao ativo que deténs, à cadeia em que te moves e aos modos de falha que estás disposto a aceitar.
O risco real: механизa de liquidação e de oráculos
Todos os mercados monetários on-chain são sobrecolateralizados, o que significa que o mutuário tem de bloquear ativos que valem mais do que o empréstimo. Se o valor da garantia descer para perto do valor do empréstimo, a posição pode ser liquidada, ou seja, parte ou a totalidade da garantia é vendida com desconto para reembolsar o credor. O feed de preços que desencadeia essa venda vem de um oráculo, que é um sistema de contratos inteligentes que recolhe preços a partir do exterior da blockchain.
É aqui que a maioria dos utilizadores perde, de facto, dinheiro. Aave, Compound e Morpho utilizam todas a Chainlink ou uma rede de oráculos semelhante, e expõem um fator de saúde ou um rácio empréstimo/valor que podes consultar no site do protocolo. Os números parecem estáveis na maior parte do tempo, e depois deixam de o ser. Quando um token tem um gap de queda numa exchange centralizada entre atualizações do oráculo, as liquidações disparam a preços desatualizados, e os depositantes吸收 a perda através do механизмa de socialização de dívida má do protocolo. Em termos simples, credores saudáveis acabam por pagar a conta de um mutuário subcolateralizado.
O registo histórico é instructive. A Aave V2 na Avalanche congelou o seu mercado de CRV em novembro de 2022, depois de o exploit da Mango Markets ter atirado o Curve DAO Token para uma espiral que colocou vários mercados de empréstimo on-chain em risco. A Compound atravessou um par de bugs de governança em 2021 e 2023 que cunharam dezenas de milhões de dólares em tokens COMP para endereços errados; não se perderam depósitos de utilizadores, mas a reputação do protocolo ficou abalada e várias propostas da comunidade tentaram recuperar os tokens. A Morpho Blue é mais recente e tem uma lista de incidentes mais curta, mas as suas vaults MetaMorpho acrescentam um curador extra e uma camada de taxas, o que significa mais um contrato em que confiar e mais um processo de governança a acompanhar.
A questão não é que algum destes protocolos seja perigosamente único. A questão é que o risco de liquidação e de oráculo é o modo de falha dominante para credores e mutuários em DeFi, e merece mais atenção do que o gráfico do rendimento.
Como a Aave define as taxas de juro
A Aave V3, atualmente a implementação dominante, opera um modelo de pool. Cada credor que deposita USDC partilha um pool, e cada mutuário que obtém um empréstimo em USDC recorre ao mesmo pool. As taxas de juro não são escolhidas pelos utilizadores, são calculadas por uma fórmula que responde à utilização do pool, ou seja, a percentagem dos depósitos que está atualmente emprestada.
Quando a utilização é baixa, a taxa de empréstimo aproxima-se de zero e a taxa de fornecimento que os credores recebem é mínima. À medida que a utilização ultrapassa um ponto de inflexão, geralmente em torno dos 80 por cento, a curva de taxas torna-se bastante mais acentuada. Isto é intencional: a Aave pretende que as taxas subam antes de o pool se esgotar, para atrair novos depositantes e incentivar os mutuários existentes a reembolsar ou a serem liquidados. Os credores ganham mais num mercado apertado e menos num mercado folgado, e o protocolo não dispõe de uma tesouraria de capital parado para suavizar as variações.
As stablecoins são os mercados mais utilizados na Aave, mas o protocolo também lista tokens de cauda longa com parâmetros de maior risco, incluindo rácios loan-to-value mais elevados, limiares de liquidação mais altos e funcionalidades de modo de isolamento que limitam a exposição a outras garantias do protocolo. Estes mercados são aqueles em que o rendimento parece mais atrativo e onde é mais provável encontrar o pior comportamento de liquidação.
Como a Compound define as taxas de juro
O protocolo v3 da Compound, designado Comet, é uma iteração mais limpa do modelo v2 original. Cada mercado Comet é um pool de um único ativo que empresta um ativo base contra um conjunto curado de tipos de garantia. Assim, ao contrário da Aave, não se deposita USDC num pool que também empresta ETH; deposita-se USDC num mercado que só empresta USDC.
Esta separação é deliberada. Se um tipo de garantia num mercado Comet colapsar, a perda fica confinada a esse único mercado, e os credores em mercados de USDC noutras cadeias ou noutros ativos não ficam expostos. A curva de utilização continua a aplicar-se, mas os pontos de inflexão e as inclinações podem variar de mercado para mercado, e a governação da Compound ajusta-os com base na liquidez e na qualidade do oráculo para cada garantia.
A distribuição de tokens COMP a credores e mutuários foi historicamente o principal motor de crescimento do protocolo, e uma série de falhas de governação no contrato distribuidor de COMP conduziu a dois eventos de cunhagem excessiva de grande dimensão. A tesouraria do protocolo e uma votação da comunidade tentaram mais tarde recuperar ou compensar, mas o episódio é um lembrete útil de que até uma base de código amplamente testada pode acarretar riscos ao nível da governação que os credores não veem num ecrã de depósito.
Em que difere a Morpho
A Morpho Blue, a primitiva central de empréstimo do protocolo, não é um mercado monetário agrupado no sentido da Aave ou da Compound. É um motor de correspondência peer-to-peer. Quando um credor deposita USDC e um mutuário obtém um empréstimo em USDC, a Morpho tenta correspondê-los diretamente. A taxa de empréstimo é fixada no momento da correspondência e mantém-se durante a duração do empréstimo, desde que a posição se mantenha saudável.
Se o depósito de um credor não encontrar um mutuário correspondente, o excedente é encaminhado para um pool de fallback, e o credor recebe a taxa desse pool. Se o empréstimo de um mutuário não conseguir ser correspondido, o empréstimo é obtido a partir do pool de fallback, e o mutuário paga a taxa de fallback. À medida que a taxa de correspondência aumenta, a taxa efetiva para ambos os lados converge para a melhor taxa que qualquer um obteria no pool subjacente.
Este é o chamado modelo de otimizador peer-to-peer, e pode proporcionar melhores taxas para ambos os lados em mercados equilibrados. Em mercados finos, em que os credores são muito mais numerosos do que os mutuários ou vice-versa, uma grande parte do capital recebe a taxa de fallback, e a vantagem diminui. Os parâmetros de risco da Morpho, incluindo o rácio loan-to-value, o limiar de liquidação e o endereço do oráculo, são definidos por mercado pelo criador do mercado, e não existe uma curva de utilização ao nível do protocolo. A troca é mais eficiência de taxa em condições favoráveis e mais risco de configuração em condições adversas.
Sobre a Morpho Blue assentam os vaults MetaMorpho. Um vault é um contrato inteligente que distribui os fundos dos depositantes por vários mercados da Morpho Blue, definidos por um curador. O curador escolhe a combinação de ativos, os parâmetros de risco e as cadeias, e recebe uma parte do rendimento em troca. Os vaults são a forma como a maioria dos utilizadores de retalho interage hoje com a Morpho, e são também onde se encontram os rendimentos mais elevados, porque o curador assume uma posição ativa sobre quais mercados sobreponderar. Esse posicionamento ativo é uma funcionalidade e um risco: se a visão do curador estiver errada, os depositantes do vault absorvem o prejuízo.
Risco de smart contract e de oráculo por protocolo
Os três protocolos são regidos por smart contracts, e os três são tão seguros quanto o código e os oráculos em que dependem. Ler uma página de risco não é opcional; é o hábito isolado com maior impacto que um utilizador de DeFi pode desenvolver.
A Aave publica um painel de risco para cada ativo listado, incluindo a fonte do oráculo, o rácio loan-to-value, o limiar de liquidação, o bónus de liquidação e um reserve factor. O reserve factor é a parte dos juros que se destina à tesouraria do protocolo em vez de aos credores, funcionando como uma pequena almofada de seguro. Os mercados Comet da Compound publicam um conjunto de parâmetros semelhante, com uma forte ênfase no risco isolado e de um único ativo. Os mercados da Morpho Blue expõem os mesmos parâmetros, além do endereço do criador do mercado e do contrato de oráculo, ambos consultáveis num explorador de blocos.
Os relatórios de auditoria estão disponíveis no site de documentação de cada protocolo, e firmas reputadas, incluindo OpenZeppelin, Trail of Bits e Spearbit, auditaram os três em diferentes momentos. Uma auditoria não é uma garantia. A falha no distribuidor de COMP da Compound, a manipulação do oráculo da bZx que afetou mercados de empréstimo em 2020 e a exploração mais recente do pool de stablecoins da Curve aconteceram em protocolos que tinham sido auditados. As auditorias reduzem a probabilidade de uma falha conhecida, mas não a eliminam.
Para um fluxo de trabalho prático, antes de depositar em qualquer mercado, consulte os parâmetros de risco do ativo na página do próprio protocolo, leia depois o resumo executivo do relatório de auditoria e verifique, por fim, um serviço de risco independente, como a DeFiSafety, ou a visão do explorador de blocos sobre o histórico de atualizações do contrato. Se o protocolo for atualizável, pergunte quem o pode atualizar, quantas assinaturas são necessárias e se o timelock, ou seja, o atraso entre uma votação de governação e a alteração efetiva do código, lhe dá tempo para sair caso discorde.
Implicações práticas: como escolher
Não existe um único melhor protocolo, e qualquer ranking que ignore o ativo, a cadeia e a tolerância ao risco do utilizador é um artefacto de marketing. Uma árvore de decisão simples é mais útil do que um classement.
Se está a emprestar uma stablecoin importante, como USDC, na mainnet da Ethereum, tanto o Aave V3 como o Compound v3 são escolhas razoáveis, e a diferença de taxa é normalmente de poucos pontos base. O critério de desempate é a governança: o Aave tem uma DAO maior e mais ativa, o design da v3 do Compound isola o risco de forma mais agressiva, e qualquer um dos dois pode ser mais seguro ou mais arriscado consoante a sua leitura das próximas votações.
Se está a emprestar um ativo de cauda longa, o isolation mode do Aave é uma funcionalidade que vale a pena compreender. O isolation mode limita a exposição do resto do protocolo a uma única garantia arriscada, o que reduz o contágio. O Comet do Compound obtém um efeito semelhante ao emprestar apenas um ativo base por mercado. O Morpho Blue dá ao criador do mercado controlo total, pelo que a segurança de um mercado Morpho de cauda longa depende inteiramente das escolhas do curador.
Se o rendimento é o seu principal filtro, um vault MetaMorpho curado é o local com maior probabilidade de encontrar um número atrativo, e também o local com maior probabilidade de encontrar um curador a fazer uma aposta que ainda não reparou. Leia a alocação do vault, leia o historial do curador e decida se o spread entre o vault e um mercado simples de Aave ou Compound é uma compensação pelo risco adicional, ou apenas um evento de cauda à espera de acontecer.
Se é um devedor, o bloqueio de taxa peer-to-peer no Morpho Blue é uma verdadeira vantagem: a sua taxa não se mexe a menos que a sua posição seja liquidada ou que reembolse. No Aave e no Compound, a sua taxa flutua com a utilização, o que significa que um afluxo repentino de empréstimos pode fazer disparar o seu custo de capital. A contrapartida é que o Aave e o Compound lhe dão um pool muito maior e mais líquido para recorrer, o que importa quando se fala de dimensão.
Como acompanhar o DeFi lending da forma inteligente
Os protocolos de DeFi lending alteram parâmetros, listam novas garantias e apresentam votos de governança constantemente, e um número de rendimento que parece ótimo num ecrã de depósito pode mudar com um único voto. Acompanhar manualmente as notícias, as alterações de parâmetros e o sentimento em torno destes protocolos é um jogo perdido para a maioria dos utilizadores. O Zippfeed destaca as manchetes do Aave, Compound e Morpho com pontuação de sentimento classificada como bullish, neutral ou bearish, além de uma classificação de importância, para que possa ver quando uma votação de governança, uma alteração de parâmetros ou um congelamento de mercado realmente importa para os seus depósitos, e ignorar o ruído pelo meio.